sexta-feira, 20 de janeiro de 2012


Agricultura Kayapó/Mebengokré
Experiência na Terra Indígena Badjônkôre – Aldeia Kranh-ãmpare
Ramon de Paula Neves – Indigenista Especializado

1 – Introdução
A idéia deste texto é descrever  e apresentar os elementos que caracterizam o modo de produção agrícola Kayapó/Mebengokré, como a cultura e a produção agrícola influenciam no dia a dia dos diversos sujeitos das comunidades, ademais de apresentar as experiências produtivas da aldeia Kranh-ãmpare na TI Badjônkôre.
Os Kayapó vivem em aldeias dispersas ao longo do curso dos afluentes do caudaloso rio Xingu, desenhando no Brasil Central um território do tamanho da Austria recoberto pela florestal equatorial, com exceção de algumas porções preenchidas por áreas de cerrado. O termo Kayapó foi usado por grupos vizinhos para denominá-los e significa “aqueles que se assemelham aos macacos”. Mesmo sabendo que são assim chamados pelos outros, os Kayapó se referem a si próprios como Mebengokré, “os homens do buraco/ lugar d’água” (POSEY, 1979).
Os povos indígenas da etnia Kayapó possuem um histórico impressionante de proteção de suas terras tradicionais contra a invasão e o desmatamento. Eles detêm um território que se estende por quase 11 milhões de hectares no sudeste da Amazônia e constituem o maior trecho contínuo de floresta tropical protegida do mundo. Hoje as terras indígenas são, praticamente, a única barreira contra a onda de desmatamento e incêndios que devastam o sudeste da Amazônia, onde a floresta dá lugar à agricultura. Este efeito barreira ocorre porque os povos indígenas, que dependem da floresta para sobrevivência, lutam ativamente pelos direitos sobre suas terras e expansão de fronteiras. Os territórios dos índios Kayapó nos estados do Pará e Mato Grosso são um exemplo impressionante da barreira contra o desmatamento e representam uma oportunidade extraordinária para a conservação numa ampla escala de paisagem. Tendo conseguido a demarcação da maior parte de suas terras, os Kayapó do século 21 têm que defender 2 mil km de divisa contra a usurpação e a invasão por fazendeiros, madeireiros, exploradores de ouro e posseiros.
A TI Badjônkôre  surgiu da não contemplação de um subgrupo quando da demarcação da TI Kayapó, mais especificamente, daquelas provenientes do grupo Kubenkrankêng, para regularização das porções de terras tradicionalmente por eles ocupadas e que estava fora dos limites da TI Kayapó.
Ocorre que os índios da referida terra indígena jamais aceitaram, com tranqüilidade e satisfação, os limites definidos, alegando não terem participado efetivamente do procedimento de demarcação acima referido, realizada em 1985, pelo convênio entre a FUNAI e a Divisão de Serviços Gerais do Exército Brasileiro, época que tiveram início os conflitos fundiários entre os índios e os segmentos regionais. Com isso nos fins dos anos 90 a TI Badjônkôre foi demarcada com mais de 200mil hectares entre os municípios de São Felix do Xingu e Cumaru do Norte.

2 – Elementos culturais
2.1 - Cosmologia
Há um mundo celeste do qual provém a humanidade. Os primeiros seres humanos que chegaram à Terra vieram de lá por uma longa corda, como formigas por um tronco. Isto foi possível porque um homem viu um tatu e o seguiu até que entrou num buraco, que depois foi usado pelas pessoas para vir a este mundo. Também as plantas celestes baixaram do mundo celestial quando a filha da chuva brigou com a mãe, desceu a este mundo e foi acolhida por um homem, a quem entregou as plantas.
Muitos relatos explicam os fatos culturais, desde a obtenção do fogo até a casa da onça-pintada. As danças são levadas muito a sério, pois explicam a relação com a natureza, a sociedade e a história. Não usam bebidas fermentadas nem plantas alucinógenas.

2.2 – Agricultura Kayapó
Sua principal atividade econômica é a agricultura itinerante praticada por homens, mulheres e meninos. Através do método de desbravar e queimar (queimada), cada par limpa um local na floresta de cerca de cinquenta por trinta metros onde estabelecem seu puru, uma horta na qual semeiam batata, cará, mandioca, algodão, milho e, ao lado das árvores, plantam cupá, uma videira com gavinhas comestíveis. Alguns grupos introduziram em suas hortas arroz, feijão, mamão e tabaco.
Recolhem mel e frutos de palmeiras silvestres como o babaçu. A castanha-do-pará, que anteriormente era recolhida pelas mulheres para seu autoconsumo, hoje é recolhida pelos homens e vendida a compradores estatais ou privados.
São bons caçadores, mas, atualmente, a caça não é abundante. Os homens tecem cestos, cintos e faixas para carregar e fabricam paus, lanças, arcos e flechas para a caça. As mulheres fabricam pulseiras, fitas e cordas
São especialmente as mulheres que produzem a quantidade necessária de alimentos calóricos. As roças, cultivadas em um raio médio de quatro a seis quilômetros da aldeia, são geridas por elas.
Os Kayapó são exigentes na escolha de terras potencialmente férteis: o lugar ideal é uma porção de floresta com uma vegetação não muito densa, não longe de um rio e situada no pé de colinas. Os Kayapó fazem uma distinção entre diferentes tipos de terrenos e de florestas. A escolha de um lugar conveniente para o estabelecimento de uma nova aldeia ou de uma nova roça não se faz de modo precipitado. Especialistas examinam cuidadosamente a terra, sua cor e sua composição. A vegetação existente é igualmente tomada em consideração.
Os homens têm a dura tarefa de cortar as árvores para a abertura das roças. As árvores são derrubadas no início da estação seca (maio) e permanecem lá alguns meses, até a proximidade da estação chuvosa. A natureza do solo constitui um grande problema na floresta equatorial, pois este é extremamente pobre em minerais. É por isso que perto do mês de outubro, os Kayapó queimam as árvores, cuja madeira teve tempo o suficiente para secar. Os minerais nelas concentrados permanecem nas cinzas, formando uma camada, que se presta de adubo. Depois da queima, as mulheres dão início à semeadura. Muitas variedades de plantas são semeadas em círculos concêntricos. Essa cultura mista apresenta um certo número de vantagens; por exemplo, as plantas de folhas grandes protegem o solo de chuvas torrenciais e do ressecamento, assim como outras plantas altas protegem do sol causticante. Algumas plantações estão igualmente relacionadas com o combate contra os insetos. Na periferia da roça, são comumente semeadas plantas medicinais. Muitas dessas plantas produzem um néctar que atrai uma certa espécie de formigas agressivas, inimigas naturais de insetos fitofágicos. Por mais que pareça desordenada, a roça kayapó está organizada segundo uma lógica extremamente estruturada.
As mulheres vão todos os dias às roças para recolher legumes. A vida de uma mulher kayapó é um tanto monótona. Mas algumas vezes por ano, geralmente durante a estação seca, pequenos grupos de mulheres vão à floresta para juntar frutas selvagens e óleo de palmeira. As excursões mais curtas duram dois dias, as mais longas, uma semana. As mulheres nunca se separam de fato da aldeia, permanecendo em um raio de cerca de 30 km ao redor dali, território com o qual são mais familiarizadas e que é constantemente atravessado por caçadores.
O antropólogo Darrel Posey, estudando os Kayapó, mostrou a preocupação desse povo com a preservação da natureza, utilizando, para isso, não só um planejamento rigoroso nas suas práticas agrícolas, como também técnicas naturais altamente desenvolvidas, se comparadas à dependência da sociedade envolvente aos defensivos químicos.
Os Kayapó, por exemplo, acreditam que existe um equilíbrio entre os espíritos dos animais, dos homens e das plantas. Se os homens abusarem dos recursos da floresta, a harmonia será destruída e chegarão doenças para toda a tribo. Para eles, nenhum aspecto da vida tribal é mais importante que o equilíbrio ecológico. [...]as roças possuem sempre cobertura vegetal, o que impede a erosão do solo e a insolação excessiva. Dentro das roças é grande a variedade de plantas e sua distribuição evita o aparecimento de insetos e outras pragas. Outros conhecimento nativo sobre a agricultura é que o plantio se faz de maneira a aproveitar ao máximo o solo, de acordo com as plantas e as condições do terreno. Assim cada planta pode aproveitar melhor as propriedades que lhe servem. As faixas de florestas conservadas entre as roças servem ao mesmo tempo de "corredores naturais" prestando-se ao uso como refúgio por plantas e animais, facilitando a reconstituição da fauna e da flora. Isto denota planejamento e permite a conservação das reservas, proporcionando que haja produção com aproveitamento máximo dos recursos e sem dano ao meio. (Posey, 1984, p.45).



2.3 - Calendario ecológico
Os Kayapó iniciam o seu ano no ngô ngrà (vazante) com atividades agrícolas que se estendem por quase todo o calendário ecológico até a maturação do milho. Segue-se o período da colheita e, com a queda dos frutos silvestres, os animais são atraídos, propiciando a época de caça que coincide com o ngô TAM (cheia). Em seguida, há um pequeno período de maior atividade de lazer e conveniência familiar, ao fim do qual, com a queda do nível das águas do rio (vazante), intensifica-se a atividade de pesca. E, com a vazante, inicia-se um novo ano. (TURNER, 1991)
O início do ano é marcado pelo cerimonial bemp, que se estende durante quatro luas: do surgimento do bemp nhõ djà - largas faixas coloridas que partem o sol poente, até a ocorrência das primeiras chuvas. Ao final do cerimonial bemp, pode-se ver no meio do céu, antes do sol nascer, o ngrôt kryre, ou punhado de cinzas, formado pelo aglomerado de sete estrelas, as Plêiades, situadas na constelação de Touro.
Diferentes épocas do ano são acompanhadas da realização de metõro, cerimoniais de caráter sazonal e de grande importância na vivência e na identidade social do grupo. A divisão das tarefas segue o critério sexual, sem fugir à regra das demais comunidades Kayapó, cabendo à mulher carregar os fardos, a lenha e transportar os alimentos cultivados nos roçados para as casas.

3 – Descrição da Experiência da Aldeia Kranh-ãmpare

A aldeia Kranh-ãmpare desenvolve, principalmente, o cultivo do milho e das diversas espécies de batatas, além de lavouras de mandioca, banana, urucu, abóbora, melancia, cará, arroz e algodão, plantadas em grupos e dispostas bem ordenadas por quase dois quilômetros às margens de um pequeno curso d'água.
As práticas agrícolas são rudimentares, atividades que incluem trabalhos simples destituídos de técnica aparente. Os estudos desenvolvidos ultimamente nesse sentido têm demonstrado o contrário. Além da derrubada da vegetação, queimada e consequentemente o plantio, inúmeros outros cuidados são observados na agricultura indígena.
São inúmeros os exemplos de conhecimento ecológico das culturas indígenas que se pode apontar, uma vez que cada grupo indígena possui seus costumes, que de um modo ou de outro funcionam para preservar os recursos naturais.
O Benjadjwyr (Chefe, cacique) Pangrá apresentou as áreas de agriculturas próximas a aldeia. Ele estima a existência de cerca de 10 alqueires de área plantada por todas as famílias (25 famílias).
Dentre as principais dificuldades no manejo da agricultura, Pangrá coloca que os idosos tem muita dificuldade de realizar sua tarefa , uma vez que o trabalho é penoso e algumas roças distantes.
Com o contato, os indígenas aprenderam e passaram a depender de ferramentas para a agricultura, as principais utilizadas na comunidade são: facão, machado, moto-serra, enxada, cavadeiras, etc.
Visando diminuir a dependência da FUNAI, a comunidade possui sua própria maneira de armazenar as sementes. Espécies como milho, arroz, abóbora, melancia feijão de fava são armazenados nas casas de cada família em sacos de fibra e em um local arejado. Como a FUNAI não possui recursos suficientes e devido as dificuldades de acesso as comunidades, as sementes nunca chegam a tempo. No caso da aldeia kranh-ãmpare não existe nenhuma dependência de sementes e a comunidade se encontra em visível estado de segurança alimentar.
Possuem três (3) fornos para a fabricação de farinha e pretendem com o tempo processar cupuaçu, açaí e cacau para venderem nas feiras da região. Processam arroz manualmente, entretanto dizem que o trabalho é muito penoso para as mulheres (que são responsáveis por esse serviço) e a comunidade deseja adquirir uma batedeira de arroz para facilitar os trabalhos.
A aldeia kranh-ãmpare se encontra em uma região de transição de cerrado para a floresta, por isso aproveitam da possibilidade de coletar frutos e plantas destes dois tipos de biomas. Os indígenas costumam coletar açaí, pequi, castanha, óleo de copaíba, cupuaçu, babaçu, andiroba, diversas variedades de coquinhos,  além da envira para confecção de artesanatos, a exemplo de paneiros, cocares, palhas para a cobertura de suas casas, lenha para abastecer as fogueiras familiares, e privilegiam a coleta do mel e da cera de abelha.
As proteínas são consumidas através da caça, da pesca e da criação de animais. Na região se encontram animais como o porco do mato, anta, paca, jabuti, búfalo, cotia, macaco e tatu, todos devidamente consumidos pelas famílias. A pesca é um pouco mais dificultosa, pois o rio se encontra a 20km da comunidade e uma ou duas vezes por semana as famílias vão até o rio pescar trairão, pacu, piranha, piau, piabanha, pintado, etc.
A partir do contato com a sociedade envolvente, os Kayapó passaram a adquirir noções de pecuária e a dominar técnicas de manejo com o gado bovino. Com a introdução das atividades criatórias, novas demandas foram surgindo em decorrência do trato com os animais. Na Aldeia Kranh-ãmpare, há um índio-vaqueiro, que aprendeu as tarefas com outro vaqueiro (“não-índio”) contratado para essa finalidade. Este índio-vaqueiro conta com o auxílio de outros três índios-aprendizes de vaqueiro, que desejam dominar as técnicas de manejo para poder substituí-lo quando for necessário ou tratar do gado de outras aldeias, caso seja convocado pelas lideranças. A comunidade possui algumas cabeças de gado nelore e búfalos, além dos búfalos selvagens espalhados pela terra indígena que são caçados.
Mesmo com toda essa disponibilidade de alimentos possui dependência de alimentos e itens industrializados como pão, café, sal, açúcar, fumo, refrigerante, isqueiro, etc. No geral, os recursos monetários obtidos por meio de programas sociais (bolsa família, salário maternidade, aposentadoria, etc) é direcionado a compra destes produtos.



4 - Referencias

POSEY, Darrell A. Ethnoentomology of the Gorotire Kayapo of Central Brazil. s.l. : Univ. of Georgia, 1979. 177 p. (Dissertação de Mestrado)
---------- Os Kayapó e a natureza. Cência Hoje, Rio de Janeiro,v.2, n.12, p. 34-41, 1984.
---------- . Manejo da floresta secundária, capoeiras, campos e cerrados (Kayapó). In: RIBEIRO, Berta G., coord. Etnobiologia. Petrópolis : Vozes, 1986. p. 173-88. (Suma Etnológica Brasileira, 1).

TURNER, Terence S. Da cosmologia à história: resistência, adaptação e consciência social entre os Kayapó. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 68-85, 1991.

Área de arroz já colhida


Mulheres na agricultura

Benjadjwyr Pangrá na área de mandioca

Menira a caminho da roça

4 comentários:

  1. Diante do quadro relatado pelo indigenista Ramon, só posso me sentir cada vez mais motivada a trabalhar em benefício da autonomia dos Mebengokré.
    Que alegria saber que a realidade indígena no sudeste do Pará ainda resiste e se adapta aos tempos modernos!
    Obrigada pela partilha de experiências!!!

    ResponderExcluir
  2. Maria Alice Xavier25 de janeiro de 2012 14:44

    Parabéns!!!!

    Kranh-Apare é realmente inspiradora!
    Sua sensibilidade em fazer de uma visita relativamente curta uma experiência digna de ser compartilhada tão brilhantemente é elogiosa e, como a Milena falou, nos estimula cada vez mais a buscar solos férteis para realizar um bom trabalho...

    ResponderExcluir
  3. Belo trabalho Ramon! Parabéns por conseguir executar algo de qualidade num contexto tão difícil quanto este da CR Tucumã, marcado por conflitos e grande vulnerabilidade dos indígenas!
    Aproveito e externo o elogio à equipe de novos indigenistas da regional. Certamente a melhoria na qualidade da desta CR e da qualidade de vida dos indígenas dependerá bastante de vocês!
    E igualmente, parabéns à equipe da regional, em especial ao coordenador, por permitir e estimular tais trabalhos além de investir na comunicação dos mesmos, por meio deste blog!
    Abraço grande e saudoso! Sucesso a vocês, firme luta aos Mebengokré!
    Icamu Sandoval

    ResponderExcluir
  4. Ramon, parabéns pelo trabalho! Nós da CR Tapajós ficamos muito felizes em ver os frutos do trabalho da nova leva de indigenistas da Funai. Apesar das dificuldades, vamos em frente. As populações indígenas merecem todo o nosso respeito e esforço para a garantia de seus direitos e modo de vida. Um grande abraço!

    ResponderExcluir

Obrigada por contribuir conosco!

Os comentários passam por moderação. Por favor identifique-se corretamente e participe respeitosa e cordialmente do blog.